sexta, 06 julho 2018 11:02

Cigarro eletrónico: pneumologista alerta para o perigo que os novos produtos do tabaco representam nos mais jovens

A evolução do panorama do tabagismo em Portugal, ainda que apresente ligeiras melhorias, tem ficado muito “aquém” daquilo que se esperava. Quem é o afirma é o Dr. José Pedro Boléo-Tomé, pneumologista do Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca e coordenador da Comissão de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP). Em entrevista ao My Pneumologia, o especialista alerta para o facto de os novos dispositivos, nomeadamente o cigarro eletrónico, parecerem atrair os mais jovens. Como o próprio afirma, quanto maior o seu consumo, “maior é o risco de virem a experimentar outros produtos do tabaco”.

 

My Pneumologia (MP) | Pelas suas características, poderá existir a perceção junto da população de que o cigarro eletrónico é mais saudável, ou menos prejudicial, do que o convencional?

Dr. José Pedro Boléo-Tomé (JBT) | Essa foi a ideia que a indústria que comercializa esses produtos tentou passar. Inicialmente até se pensava que eram produtos que só continham vapor de água e aromas. Depois percebeu-se que continham produtos químicos. Entretanto, já se percebeu que existem muitos produtos que são químicos perigosos, alguns deles semelhantes aos que estão presentes no cigarro convencional. Atualmente contêm doses de nicotina, um produto altamente aditivo, e que, no fundo, serve para criar e perpetuar adição.

Portanto, esta ideia de que são produtos mais seguros é falsa e sem fundamento.

 

MP | Que grupo da população parece ser mais atraído pelo cigarro eletrónico? Porquê?

JBT | Apesar das alegações da indústria de que estes produtos se dirigem a pessoas que já são fumadoras e que querem, inclusivamente, deixar de fumar os cigarros convencionais, a realidade é que, nos últimos anos, tem havido um crescimento exponencial do que é a experimentação dos mais novos, sobretudo dos adolescentes.

Há alguns anos, a taxa de experimentação destes produtos nos adolescentes era muito residual. Neste momento é bastante elevada, uma vez que são atraentes aos mais novos, por serem dispositivos eletrónicos, parecidos até com muitos dos gadgets que se utilizam hoje em dia. Já há estudos que mostram que, quanto mais experimentam estes produtos, maior é o risco de virem a experimentar outro tipo de produtos de tabaco, ou até tendência para iniciação de outras drogas.

 

MP | O que tem a dizer relativamente à inclusão do tabaco aquecido e do cigarro eletrónico no mesmo patamar do cigarro convencional, no âmbito das leis impostas ao seu consumo?

JBT | Apesar de serem produtos mais recentes, o que já se vai sabendo de evidência científica faz com que não possamos dizer que eles são mais seguros. Portanto, faz todo o sentido que as proibições sejam as mesmas e que sejam colocados ao mesmo nível que os outros produtos do tabaco, porque é isso que são. São produtos do tabaco, têm nicotina, uma substância muito aditiva, e por isso devem ser sujeitos às mesmas proibições.

 

MP | Os cigarros eletrónicos e o tabaco aquecido são ainda relativamente recentes, sendo que os estudos sobre os seus efeitos, para além de escassos, são maioritariamente da autoria da indústria tabaqueira. Considera que esse fator tem influência na comercialização e utilização destes dispositivos? Em que medida?

JBT | Isso está a acontecer ainda muito com o tabaco aquecido, porque é um produto mais recente, pelo que ainda não houve tempo para que os cientistas produzissem estudos independentes. No caso do cigarro eletrónico, já há muitos estudos independentes e evidência bastante forte dos riscos. O que ainda não sabemos é, com certeza absoluta, de quais são os efeitos a longo-prazo, porque são estudos epidemiológicos que demoram décadas. Mas, como muito dos componentes são semelhantes aos do cigarro convencional, já há muito que podemos inferir.

 

MP | Que avanços têm sido feitos, nomeadamente em Portugal, para tentar contrariar a utilização destes dispositivos?

JBT | Eu creio que ainda se tem feito pouco, sobretudo para alertar as pessoas. É preciso um trabalho de prevenção continuada, até nas escolas. Apesar de tudo, a nossa legislação também já os colocou ao nível dos outros produtos de tabaco, portanto, estão sujeitos às mesmas proibições, o que é algo positivo. Todavia, é preciso alertar mais, sobretudo, naqueles grupos que estão mais suscetíveis a experimentar e a começar e a utilizar estes produtos.

 

MP | De que forma tem evoluído o consumo de tabaco em Portugal nas últimas décadas?

JBT | Sempre tivemos taxas inferiores à média europeia. No entanto, a sua redução tem sido muito tímida. Num período de cerca de 10 anos, verificou-se uma redução média de cerca de um ponto percentual apenas. No caso dos homens, tem havido uma descida consistente. No caso das mulheres regista-se o contrário – uma subida que nem sequer ainda estabilizou.

 

MP | O relatório “Portugal – Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017”, elaborado pela Direção-Geral da Saúde, estima que em 2017 tenham morrido em Portugal mais de 11 mil pessoas por doenças causadas pelo tabaco. Como comenta este número?

JBT | Os números falam por si. E estamos a falar de números relativos aos efeitos diretos. Ou seja, aquelas doenças que são causadas diretamente e sem qualquer dúvida pelo tabaco. Mas há muitas outras doenças que estão associadas, em que o efeito não é assim tão direto.

E não falamos só de mortalidade. Estamos também a falar de doença, perda de anos de vida saudável, complicações, recurso a cuidados médicos, perda de dias de trabalho. Portanto, os custos, quer para o indivíduo, quer para a sociedade, são brutais. Não há nenhum fator de risco causado pelo homem que tenha comparação.

 

MP | Qual o ponto de situação relativamente à implementação de consultas de cessação tabágica em Portugal? E em relação à adesão da população a este apoio?

JBT | As consultas eram muito insuficientes. Nos últimos anos, esta situação tem mudado. Está consagrado no Plano Nacional de Prevenção e Controlo do Tabagismo e tem havido medidas para que aumente o número de consultas e em todos os agrupamentos. Grande parte dos hospitais do país também já a tinha. O problema são as listas de espera.

Não existe falta de adesão das pessoas, as listas de espera demonstram isso. Há muitas pessoas que estão interessadas em deixar de fumar mas que não conseguem fazê-lo sozinhas, então recorrem a estas consultas. A ideia é a de que cada vez mais haja facilidade de as pessoas recorrerem a este tipo de apoio e, ao mesmo tempo, tenham acesso mais fácil aos medicamentos comprovados para a cessação tabágica.

 

MP | Qual é a sua opinião relativamente à Lei do Tabaco em vigor atualmente em Portugal?

JBT| Nos últimos anos têm havido algumas revisões da lei que têm ficado um pouco aquém daquilo que têm sido as propostas mais ambiciosas. Em Portugal, tem havido sempre muita pressão para que essas medidas não sejam todas implementadas.

Embora já seja proibido por lei fumar em espaços fechados, a maior parte dos espaços acaba por não cumprir na prática. Continua a haver muitas exceções que não fazem qualquer sentido. Por isso, ainda há aqui muito por fazer, sobretudo para proteger as populações mais frágeis – crianças, grávidas, idosos, doentes.

 

 

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