segunda, 23 julho 2018 16:34

Cuidados integrados e centrados na pessoa com asma permitem "mais qualidade dos serviços, mais eficiência e redução de custos"

Um estudo desenvolvido pela Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit) do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), e recentemente publicado na revista International Journal of Integrated Care, vem chamar a atenção para a necessidade de os centros de saúde disporem de cuidados integrados e mais centrados nas pessoas com asma para que estas consigam controlar melhor as crises agudas desta doença crónica e minimizar o impacto negativo da patologia nas suas vidas. O My Pneumologia entrevistou a primeira autora da investigação, Dr.ª Liliana Abreu, que refere que com este tipo de cuidados"espera-se mais qualidade dos serviços, mais eficiência e redução de custos, centrando os serviços mais naquilo que as pessoas ainda podem fazer e menos nas suas incapacidades".

My Pneumologia (MP)| Como caracteriza o panorama da asma atualmente em Portugal?

Dr.ª Liliana Abreu (LA) | A asma é uma doença crónica frequente, que afeta crianças e adultos e ainda é, nos dias de hoje, muito subdiagnosticada. Estima-se que em Portugal a asma tenha uma prevalência de 6,8% e, de acordo com os dados oficiais, cerca de metade das pessoas com asma não tem a sua doença controlada.

 

MP| A EPIUnit do ISPUP, da qual faz parte, publicou na revista científica International Journal of Integrated Care um estudo sobre a asma. Em que consistiu? Que métodos foram utilizados?

LA | Este estudo foi feito no âmbito de um projeto de doutoramento, onde se pretendeu explorar as formas como as redes de suporte e as experiências das pessoas são um reflexo da literacia em saúde distribuída dos indivíduos, mapeando o papel dos mediadores em saúde (aqueles que partilham a sua literacia com os outros de modo a que realizem determinada tarefa) enquanto facilitadores da gestão de uma doença crónica. A asma foi uma das doenças analisadas. Fomos para um centro de saúde da região Norte, onde fizemos entrevistas qualitativas a várias pessoas que vivem com doenças crónicas. Essas entrevistas tiveram como base um instrumento de investigação qualitativa, previamente validado noutros estudos, não só nacionais como internacionais, que é o McGill Illness Narrative Interview. Muito genericamente, este instrumento explora o conhecimento e as perceções sobre a doença desde o momento do diagnóstico, o impacto na vida, o suporte social e a utilização dos serviços de saúde.

 

MP | Quais as principais conclusões?
LA | Este estudo qualitativo observacional concluiu que a literacia em saúde distribuída é relevante na gestão de doenças crónicas, em termos práticos e relacionais, o que tem implicações no desenvolvimento de serviços de saúde integrados e centrados nas pessoas, nomeadamente na necessidade de criação de espaços híbridos de diálogo entre os vários mediadores de cada rede individual.
Ao explorar os significados atribuídos ao diagnóstico, ao avaliar as necessidades e vulnerabilidades no acesso aos cuidados de saúde, e ao identificar a rede de mediadores de saúde e o respetivo papel na gestão da doença, este estudo contribuiu para aprofundar o nível de conhecimento e a compreensão sobre os fatores contextuais que influenciam as práticas de saúde na gestão das doenças crónicas. Identificar os diferentes papéis dos mediadores no suporte à gestão da doença foi essencial para clarificar os limites da transferência de responsabilidades, de modo a permitir uma colaboração mais eficaz entre os profissionais de saúde, família/amigos e media.

 

MP | Quais são as vantagens para o doente de os centros de saúde disporem de cuidados integrados e centrados na pessoa asmática?

LA | Os cuidados integrados e centrados nas pessoas que vivem com uma doença crónica, no caso concreto, a asma, pressupõem que os serviços de saúde respondam mais diretamente às reais necessidades das pessoas, com um serviço mais continuado, personalizado e proporcionando um aumento da autonomia das pessoas na gestão da sua saúde/doença. Espera-se mais qualidade dos serviços, mais eficiência e redução de custos, centrando os serviços mais naquilo que as pessoas ainda podem fazer e menos nas suas incapacidades. Por exemplo, se uma pessoa que não sabe ler, consegue fazer uma gestão eficaz de uma ou várias doenças que implica a toma diária de várias medicações, quem lhe presta esse apoio? Foi assim que chegamos à literacia em saúde distribuída, tentar perceber como as pessoas gerem uma doença crónica e de que forma usam o seu suporte social para fazer essa gestão. No caso da asma, sabemos que a não adesão ao tratamento e a utilização incorreta dos inaladores, conduzem à falta de controlo da patologia, e é preciso entender o porquê de isto acontecer.

 

MP | De que forma é que essa medida ajuda a minimizar o impacto negativo da asma na vida dos doentes e a controlar crises agudas?

LA | O nosso estudo demonstrou que existe uma rede de mediadores, presente no suporte social de cada indivíduo, com um papel essencial na gestão da asma. Essa rede de suporte já existe, mas é preciso potenciar a mesma. Quando falamos nos serviços integrados e centrados nas pessoas, passa precisamente pela inclusão destes mediadores como agentes mais ativos na gestão da doença. Se uma doença faz parte da história de família, seria importante perceber como é que as pessoas vivem com a doença, quais as perceções e a literacia em saúde que têm, de forma a avaliar as práticas de saúde, as necessidades e as próprias vulnerabilidades no acesso aos cuidados de saúde.

 

MP | Em Portugal, o controlo da asma tem revelado ser um problema, que acaba por traduzir-se em maiores encargos para o próprio estado. De que forma esta medida poderia aliviar os gastos?
LA | Por exemplo, um controlo mais eficaz levaria a uma redução dos internamentos hospitalares e das idas aos serviços de urgência, o que levaria, por si só, a uma enorme redução dos custos ao estado. Já para não falar da melhoria das condições de vida do doente. No nosso estudo fazemos um conjunto de recomendações para que os serviços de saúde sejam mais integrados e centrados no doente, que passam pela identificação dos potenciais mediadores de saúde de um doente, tentar perceber como é que o suporte é prestado e qual o tipo de suporte (informacional, instrumental e/ou emocional) e tentar maximizar o potencial destas redes. Entre outras recomendações.

 

MP | Qual deve ser o papel desempenhado pela família, pelos amigos e pelos profissionais de saúde na vida do doente asmático?

LA | Sobretudo o papel da família é essencial para uma gestão eficaz de uma doença como a asma. É a família que muitas vezes alerta para elementos desencadeadores de crises agudas, como por exemplo, tomar em atenção certos ambientes que podem causar alergias, ou que aconselha/relembra a toma da medicação, isto de um ponto de vista de suporte mais instrumental. Mas mesmo a nível de suporte emocional, a família mostrou ter um papel relevante, como por exemplo para ajudar a manter a calma em momentos de crise.

 

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